quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crônica do dia 2(noite) Iracema era o nome dela. Ela cozinhava, lavava, passava, fazia as compras, ia à feira, nunca sabíamos o que íamos comer. Era negra e linda. Eu chegava da escola cheia de fome e o almoço se materializava na mesa: feijão, arroz, bife, batata frita, carne assada, salada. E comíamos com prazer aquela comida maravilhosa de Iracema. Depois da louça lavada, a cozinha arrumada, às vezes íamos ao cinema na Praça Sãens Pena. Foi com ela que assisti La Violetera, A Noviça Rebelde entre outros filmes daquela época. Quando não íamos ao cinema Iracema costurava os vestidos de baile de minha mãe, é, naquele tempo se ia muito a bailes, principalmente os que o Clube Renascença promovia. E lá ia d. Leda toda garbosa com aqueles vestidos feitos por Iracema. Eu me lembro dos vestidos, das carteiras, das luvas, dos sapatos e do perfume de minha mãe. Nas tardes que não tinha nada pra fazer, Iracema ficava no quarto dela e tocava violão. E cantava a Iracema. E cantava bem. "Deixa a cidade/formosa morena...e a fonte a cantar, chuá, chuá, e as água a correr, chuê, chuê...parece que alguém/que cheio de mágoa..." E Iracema cantava. Leilinha ficava do lado, sentada na cama de Iracema, ouvindo aquela letra e gostando muito. Um dia, Iracema chegou com a notícia bomba!Ia se casar e deixar nossa casa. Todos choraram. Até meu tio Zico, que ia nos visitar sentiu a saída de Iracema. Nunca mais aquela carne assada, as tardes no cinema, as músicas e o violão. Leilinha então pediu ao pai que lhe comprasse um violão. Queria aprender a tocar e cantar como Iracema, assim ela ficaria sempre a seu lado. E ele comprou. Leilinha já era Leila, tinha 13 anos e teve aulas com um amigo do irmão, naquela época estudante do colégio Pedro II, hoje grande médico, diretor de uma famosa Clinica na zona sul do Rio de Janeiro. Ela aprendeu a tocar as músicas preferidas, as que faziam sucesso na época. Tempo, tempo, tempo...hoje ligo o Facebook e a primeira foto que vejo é essa, meu neto Gabriel, 2 anos, com o violão no colo, futuro músico(ou não). O velho violão que meu pai comprou, lembrança de Iracema e a fonte a cantar/chuá/chuá e as água a correr/chuê/chuê"...saudades...
Crônica do dia 1 (manhã) Aí abro o pacote de arroz e deixo cair no chão quase o quilo todo...arrasto a geladeira, varro tudo, coloco num pote, ponho os óculos e cato todas as sujeirinhas, afinal não se pode jogar fora quase um quilo de arroz tio João.....lavo bem e ponho no fogo uma parte do arroz catado do chão. O medo agora é achar um fio de cabelo que estava embaixo da geladeira desde 1986, porque todo mundo sabe que o chão da cozinha nunca está totalmente limpo!!!! Aí abro o face e me deparo com uma foto de 1977 (por aí) com Daniel, meu filho bem pequeno ainda roendo a unha ao lado do pai dele, mais um grupo de amigos muito queridos, e o passado me dá um tapa na cara! Vejo outra foto e meu neto está com o violão que eu ganhei do meu pai quando fiz 13 anos...outro tapa na cara do passado...é, a vida é assim!

domingo, 28 de outubro de 2012

É estranho voltar ao bairro que se morou há anos atrás...quando eu era menina, na década de 1950, morei no Grajaú, na rua Caruaru, lá no final. Morava no morro atrás do meu prédio, um senhor, seu Torto, que criava cabras e elas andavam pelas ruas do bairro, livres durante o dia e no final da tarde, seu Torto vinha buscando uma por uma pra levar pra casa. Tenho também a lembrança de ter subido naquele pico que fica na reserva, um marco no bairro...hoje estive numa casa que fica bem de frente pra ele, lindo demais. Depois já adulta e com filho, fui morar na rua Campinas, com sua praça Nobel, na década de 1980. Hoje a praça está cercada, e tinha uma banda de rock tocando lá...fiquei lembrando dos meus passos naquelas calçadas, empurrando carrinho de bebê, indo à feira, visitando as amigas, conversando com as vizinhas, passeando com o cachorro numa volta ao passado que me parece tão distante, tão eu era feliz e sabia...foi bom, rever as casas que continuam iguais, o velho 422 e fiquei me perguntando se realmente fui eu que vivi aquela vida ou foi uma vida que me contaram. Sábado. 27/10/12

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ipanema

Crônica do dia
Foi em Ipanema que fui à praia com Leila Diniz e sua barriga, Sonia Braga e seu cabelão, Fernando Gabeira e sua sunga de crochê, Wally Salomão e seu batom vermelho e casaco de oncinha, Petit e seu dragão tatuado no braço, fui ao Teatro Ipanema ver todas as noites "Hoje é dia de rock", com Evandro Mesquita e a galera, onde beijei na boca de outra mulher com Wally incentivando, foi onde meu filho Daniel dormiu na areia com as pranchas de Rico, Bocão e cia fazendo sombra, onde meu namorado na época levava um colchonete pro telhado do prédio pra gente namorar e olhar as estrelas, onde Maria Inês, mãe de Jonas Torres, nosso eterno Bacana (de Armação Ilimitada)e eu empurrávamos nossos carrinhos com nossos bebês lindos, onde a polícia dava "dura" na gente, só porque éramos cabeludos e diferentes, onde jantei no Pizzaiolo com Gal Costa, onde bebi cerveja na mesma latinha com Paulinho da Viola na Banda de Ipanema, onde ia tomar café com leite de tarde na casa de Abel Silva, nosso querido poeta. Em Ipanema, peguei onda de peito (jacaré), joguei altinho (bem!), andei de bicicleta com meu compadre João Mafalda, comprei calça com boca de sino de carne seca (era o nome do tecido) na Hippie Center, comi no Bob's, fui à Feira Hippie comprar sandália de sola de pneu e bolsa de couro, foi onde íamos curtir todas as noites, gente, Ipanema era um barato nos anos 70!Por isso tudo vamos comemorar no dia 16!E desculpe mas eu vou chorar, como diz a letra da canção!

Leila Oli - RJ - 12/03/12

sábado, 3 de março de 2012

Crônica do dia

Vou de bike pra Copacabana, preciso fazer compras. Deixo minha mãe aos cuidados de meu filho Codé, subo o Corte do Cantagalo devagar e pedalo pela ciclovia da Xavier da Silveira. Desço pela Leopoldo Miguez até a Barão de Ipanema e chego à agência do Banco do Brasil. Tem um vendedor de côco bem na esquina, com seu carrinho encostado à parede daquele prédio que já foi a Confeitaria Colombo, um luxo que poucos se lembram (ou não) e onde se comia a melhor coxinha de galinha do mundo, com um ossinho dentro que a gente segurava com o guardanapo. Atravessando a rua, uma moça muito bem vestida com aquele uniforme de aeromoça, saia azul marinho pelos joelhos, meias finas, blusa branca, sapato alto e o casaquinho da mesma cor da saia. Na cabeça, aquele chapeuzinho com o broche da cia aérea. Puxa uma mala de rodinhas pela calçada e caminha como se caminhava há muitos anos atrás. Como se eu desse uma cambalhota, o tempo volta e estou nos anos 60, quando o sonho de muitas meninas era um dia vir a ser aeromoça e usar aquele uniforme. O vendedor de côco não resiste e comenta sobre a moça, ele tinha visto ao mesmo tempo que eu. Ela entra no banco e ficamos ele e eu olhando pelo vidro como uma visão do passado. Ele sorri embevecido, é uma linda visão, não que ela fosse exatamente linda, mas a sua elegância, seu porte, seu andar, deixa o vendedor de côcos e eu parados no tempo numa Copacabana que nunca mais vai voltar.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Veludo

Então ela olhou para cima. Os fungos estavam no teto do corredor e ela achou que eram interessantes, mas ameaçadores. Criaturas vivas, de forma arredondada que iam rapidamente se transformando em coisas peludas, azuis, com uma espécie de franja que pendiam em direção ao chão. Ela falou com seu seu pai que estava com medo. Ele calmamente explicou que os fungos estavam se reproduzindo e que haviam se formado por causa da umidade que entrava pelo bocal da lampada. A umidade, o calor e a escuridão favoreceram essa criação. Ela estava ficando apavorada. Mas se encheu de coragem e resolveu que ia retirar todos aqueles bichos peludos do teto de sua casa.
A criança não parava, andava pela casa procurando coisas para mexer e a deixava tonta e mais nervosa ainda. Otavio estava deitado, havia se sentido mal e Layla o convenceu que devia se deitar um pouco, nesse momento era o melhor a fazer. Ele era o novo marido de sua mãe e Layla admirava o trabalho dele como ator. Valeria chegou e se encarregou de distrair a menina, que agora corria em volta da estante de vidro que ameaçava cair e causar um estrago. Valeria saiu com a menina e Layla se acalmou. Resolveu que precisava de uma espátula, dessas que os pedreiros usam, para retirar as criaturas franjadas e estranhas que haviam invadido o teto de sua casa e não paravam de crescer. Subiu para o terraço, onde o fogão à lenha nunca era apagado e começou a procurar nas fendas das paredes, que faziam as vezes de estantes e armários. Era ali que os homens guardavam seus materiais de trabalho. Só encontrava facões e pedaços de madeira. Nada de espátula. Olhou para a rua lá embaixo, o trânsito era alucinante, carros em todas as direções, alguns sendo empurrados por homens fortes e morenos como todos da região. Ela se lembrou do trânsito de Calcutá. Layla estava tão distraída que nem percebeu que Marcio havia chegado. Ele a abraçou e se sentaram no banco, um de frente pro outro, pernas entrelaçadas e começaram a se beijar sem se importar com as pessoas em volta, afinal todos já estavam acostumados com esse amor intenso e abusado deles. Layla falou para descerem, para o quarto, mas então se lembrou do motivo de estar ali. Precisava de um instrumento para retirar as criaturas do teto do corredor.
Manoel apareceu animado e falante, querendo contar uma piada. Mas Layla não estava a fim de escutar piadas. Tinha uma tarefa a fazer e ia. Marcio percebeu que ela estava nervosa e agitada e quis saber o motivo. Riu quando ela contou e disse que ela estava nervosa à toa, aquilo era fácil de resolver e ela então sorriu e pensou em como amava aquele homem. Tinham se conhecido há muito tempo, ele era lindo, com os cabelos compridos até os ombros, olhos castanhos e um sorriso lindo. Se apaixonou por ele assim do nada, à primeira vista, só pelo sorriso aberto, aquela boca de promessa de felicidade. Quando Layla perguntava quando ele se apaixonou por ela e porque, ele sorria e dizia que não sabia responder, não tinha certeza. Tinha a sensação que havia sido na noite em que sairam para beber e ela mostrou a perna pedindo para ele sentir como a pele dela era macia e ele teria dito que parecia um veludo!Então, desde dia não mais se separaram e viviam intensamente esse amor. Ele morava numa colina, numa casinha pequena e rústica, bem humilde, mas isso não tinha a menor importância. Só o que interessava a ela era o seu corpo bem feito, seus ombros largos e suas pernas bem torneadas, com panturrilhas musculosas. Era um homem perfeito e isso bastava. Ela subia a colina feliz, excitada só em pensar o que iam fazer assim que ela entrasse pela porta. Seus beijos eram os melhores, mais doces e quentes que ela já havia experimentado, suas mãos grandes e bem feitas percorriam sua pele com ternura e ela ficava arrepiada e se sentia amada e desejada como todas as mulheres gostariam de se sentir!Marcio era rústico, quase rude, sem estudo, mas era o melhor amante, o mais doce que ela já tivera. Tocava de ouvido como se diz, puro instinto ou intuição.
Desceram juntos então para a casa, para o corredor onde estavam os fungos ameaçadores e Marcio rapidamente se livrou das criaturas com suas ferramentas. Colocou aquelas coisas, como Layla dizia, em sacos pretos de lixo e passou querosene no teto para que não mais se criasse qualquer espécie de fungo ou coisa parecida. Consertou também a abertura do bocal da lâmpada, colocou uma nova no lugar da queimada e desceu da escada, guardando as ferramentas numa caixa. Layla olhava para ele extasiada, aquele homem tão bonito, tão sedutor, capaz de fazer esse trabalho tão facilmente, um trabalho que para ela parecia tão perigoso e difícil!
Layla então o beijou, deram as mãos, e foram olhar a casa. Otavio estava melhor, se sentindo recuperado, a menina dormia, Valeria cochilava na cadeira de balanço perto da janela. Seu pai sorriu para ela e a vida voltou ao normal.

(Um sonho de Leila Oli - dezembro de 2010)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Meu pai

Quando eu era criança, costumava brincar nos corredores do Castelo Mourisco, na FIOCRUZ, ou simplesmente Manguinhos, como se chamava na época. Isso acontecia nos sábados de manhã, naquela época os pesquisadores trabalhavam meio período aos sábados. Entrava nas salas, mexia nos papéis, abria gavetas e os tubinhos de vidro com rolhas eram os meus brinquedos favoritos. Claro que sempre tinha alguém supervisionando essas travessuras, não se podia mexer em nada sem autorização! Gostava muito daquelas fichas brancas, pequenas, cheias de linhas e os blocos de notas também me atraíam muito.
- Se não tiver nada escrito, pode pegar, dizia meu pai.
E assim fui crescendo, cercada de livros, blocos, fichas e tubinhos de vidro. E, claro, tinha também os amigos de meu pai e era um capítulo à parte. Havia um que levava uma valise e quando chegava, atraía a vizinhança. Quando a valise era aberta, saíam cobras de dentro dela, que subiam nos móveis e andavam pela sala com a maior naturalidade!Imaginem isso na cabeça de uma criança!
Mas lá em casa era normal. Havia também o amigo que tirava retratos, as fotografias da família, das crianças e no sábado era o dia do barbeiro que vendia jóias, vocês podem imaginar como a casa era animada! Eu poderia ficar aqui falando sobre a minha infância o resto do dia sem cansar vocês, tantas são as histórias interessantes!