domingo, 13 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Canção de Joana D'Arc

Canção de Joana D'Arc (Adélia Prado)

A chama do meu amor faz arder minhas vestes.
É uma canção tão bonita o crepitar
que minha mãe se consola,
meu pai me entende sem perguntas
e o rei fica tão surpreendido
que decide em meu favor
uma revisão das leis.

Bairro

Bairro (Adélia Prado)

O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excrementos e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
orapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir no cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor,
o samba canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.

sábado, 21 de novembro de 2009

Eu quero ser Dorival Caymmi

Crônica publicada por Renato Lemos no Jornal do Brasil em 17 de novembro de 2005

Que mané John Malkovich que nada! Se a vida fosse um pouquinho mais justa com a gente, seríamos todos Dorival Caymmi. Inclusive as mulheres. Todos. Todos com cabeça branca, bigodes brancos, camisas listradas e chinelo de dedo. Nasceríamos todos na Bahia, mas elegeríamos o Rio de Janeiro para viver o resto de nossas vidas. Teríamos sorte. A gente se casaria com a dona Estela, uma mulher bonita, de cabelos brancos, bigodes brancos, camisa listrada e chinelo de dedo. E arrumaríamos um punhado de filhos só pelo prazer de um dia cantar com eles. Teríamos o Jorge Amado como parceiro. E o mar também. Dormiríamos em rede. Viveríamos mais de 90 anos. E seríamos felizes, todos, com certeza."...
O compositor atravessou décadas fingindo que cantava a Bahia, o mar, os pescadores, as mulatas, os vestidos grenás, Iemanjá e Ogum. Tudo cascata. Caymmi canta a si mesmo em letras simples, com melodias simples. Deve ser a fórmula certa para levar uma vida comprida, ensolarada e feliz. E é por isso que a gente quer ser igualzinho a ele."...
Todo mundo tem sua listinha de melhores. Melhores solos de guitarra, melhores capas de disco, melhores imagens de surf, melhores cenas de beijo. Não sou o Lula Branco Martins, mas também tenho a minha lista de melhores versos da música brasileira, por exemplo. No topo da lista, estão as palavras com que Chico Buarque abre Futuros amantes: "Não se afobe não/que nada é pra já/o amor não tem pressa/ele pode esperar/em silêncio". Logo depois, cabeça com cabeça, chegam os versos de Caymmi para Vatapá: 'Com qualquer dez mil réis e uma nega, ô/se faz um vatapá". É a perfeição da síntese. Ou a síntese da perfeição.

Renato Lemos, JB - Caderno B - 17/11/05

Vale a pena

Vale a pena (Leila Oli)

No começo do mês, fui ler alguns poemas para estudantes do ensino médio, curso para jovens e adultos em uma escola estadual em Laranjeiras. Poucos alunos, de idades variadas. Na primeira turma, apenas uma aluna estava presente. Os outros foram para outra sala, assistir outra aula. Vale dizer que é meio bagunçado, os professores juntam turmas para poderem sair mais cedo. Mas fiz minha leitura assim mesmo, para uma única aluna, dona Bené, que segundo o professor de Língua Portuguesa que havia me convidado, tem muitas dificuldades, não consegue passar de ano, já é uma senhora. Mais tarde, fiz minha apresentação para dois outros grupos de alunos, alguns interessados, outros nem tanto. Claro que falei Adélia Prado, minha poeta favorita, com seus poemas deslumbrantes. No final, dei alguns poemas impressos para o meu amigo Hugo, o professor, ler para eles em suas aulas.
O tempo passou. Ontem ele me contou que dona Bené, aquela senhora, que vende guarda-chuva na Cinelândia, com sua dificuldade em ler, aprender, passar de ano, não se sabe porquê, nem pra quê quer um diploma de 2º grau, vai fazer um trabalho a partir do poema "Amor feinho", de Adélia Prado. Ela leu o poema em voz alta para a turma, ele surpreso, pois ela nunca havia se manifestado em ler coisa alguma até então.
Fiquei tão emocionada e feliz, que precisei compartilhar aqui com todos. Está provado, pelo menos pra mim, que a poesia é capaz de mudar a vida de uma pessoa, mesmo que ela seja humilde, ignorante, tenha dificuldades de aprendizagem e outras deficiências. Agora estou à espera desse trabalho, que mesmo que tenha apenas uma linha, fale qualquer coisa, será escrito por uma pessoa sensível, que soube entender o poema e espero tenha tocado fundo em algum cantinho de sua alma.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ensinamento

Ensinamento (Adélia Prado)

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou de amor.
Essa palavra de luxo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Impressionista

Impressionista (Adélia Prado)

Uma ocasião,

meu pai pintou a
casa
toda de alaranjado
brilhante.
Por muito tempo moramos
numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.