sábado, 21 de novembro de 2009

Eu quero ser Dorival Caymmi

Crônica publicada por Renato Lemos no Jornal do Brasil em 17 de novembro de 2005

Que mané John Malkovich que nada! Se a vida fosse um pouquinho mais justa com a gente, seríamos todos Dorival Caymmi. Inclusive as mulheres. Todos. Todos com cabeça branca, bigodes brancos, camisas listradas e chinelo de dedo. Nasceríamos todos na Bahia, mas elegeríamos o Rio de Janeiro para viver o resto de nossas vidas. Teríamos sorte. A gente se casaria com a dona Estela, uma mulher bonita, de cabelos brancos, bigodes brancos, camisa listrada e chinelo de dedo. E arrumaríamos um punhado de filhos só pelo prazer de um dia cantar com eles. Teríamos o Jorge Amado como parceiro. E o mar também. Dormiríamos em rede. Viveríamos mais de 90 anos. E seríamos felizes, todos, com certeza."...
O compositor atravessou décadas fingindo que cantava a Bahia, o mar, os pescadores, as mulatas, os vestidos grenás, Iemanjá e Ogum. Tudo cascata. Caymmi canta a si mesmo em letras simples, com melodias simples. Deve ser a fórmula certa para levar uma vida comprida, ensolarada e feliz. E é por isso que a gente quer ser igualzinho a ele."...
Todo mundo tem sua listinha de melhores. Melhores solos de guitarra, melhores capas de disco, melhores imagens de surf, melhores cenas de beijo. Não sou o Lula Branco Martins, mas também tenho a minha lista de melhores versos da música brasileira, por exemplo. No topo da lista, estão as palavras com que Chico Buarque abre Futuros amantes: "Não se afobe não/que nada é pra já/o amor não tem pressa/ele pode esperar/em silêncio". Logo depois, cabeça com cabeça, chegam os versos de Caymmi para Vatapá: 'Com qualquer dez mil réis e uma nega, ô/se faz um vatapá". É a perfeição da síntese. Ou a síntese da perfeição.

Renato Lemos, JB - Caderno B - 17/11/05

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