quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Boa vizinhança

Então aquela que um dia seria conhecida como Sereia pensou que nunca mais teria um homem a seu lado, que morrera para o sexo, tinha ficado muito tempo casada, e havia perdido o jeito de paquerar, flertar, ninguém mais olharia para ela, nem a desejaria. Estava assexuada. Ia a vários lugares, saía à noite e nada acontecia. Os amigos apresentavam amigos e nenhum se interessava. Uma noite estava numa festa com as amigas e um rapaz chamou sua atenção. Na verdade chamou a atenção de sua melhor amiga, que comentou ser o mesmo que já haviam visto no samba e também no seu próprio prédio, há poucos dias.
- No meu prédio? – disse a Sereia.
Então ela vislumbrou uma boa oportunidade de testar sua capacidade de sedução adormecida por dois longos anos. Como ele estava se aproximando com um casal e parou bem na sua frente, ela se encheu de coragem e falou:
- Acho que somos vizinhos – O rapaz olhou para ela surpreso e depois de confirmar, sim eram vizinhos, disse sorrindo que já sabia onde pedir uma xícara de açúcar quando precisasse.
Pronto, ela conseguira fazer contato, nem foi tão difícil assim. A partir dessa noite, começaram a se encontrar casualmente, no elevador, na portaria, ele chegando, ela saindo e sempre aquele clima cordial e simpático de ambas as partes. Ela começou a convidá-lo para ir a festas, shows e ele nunca podia, pois trabalhava até tarde num jornal. Mas falou que segunda-feira era o dia mais livre, chegava mais cedo e quando tivesse algum evento numa segunda, com certeza ele iria. Apareceu a oportunidade e ela mais que depressa pegou um convite, fez um bilhetinho e colocou embaixo da porta dele, torcendo para que ele aparecesse.
E ele apareceu!Chegou por volta da meia noite, perfumado, bonitão, gentil, claro que tinha passado em casa e se arrumado. Ela adorou, agradeceu a presença, afinal era show da banda do filho dela e ficaram ali juntinhos assistindo. Os amigos dela sabendo de tudo, se afastaram e deixaram os dois a sós. Terminado o show, ela perguntou se ele ia para casa e pediu carona. Entraram no carro, ela meio sem graça, afinal estava fora de forma nestas questões amorosas e sexuais, precisava de um tempinho para se acostumar a ficar com um homem novamente. Esse tempinho foi o caminho até em casa. Aliás, a casa dele, e ela até hoje ela não se lembra como foi parar no apartamento dele. Só se lembra de estarem no elevador se beijando e já dentro da sala da casa dele. Foi uma noite e tanto!
No dia seguinte foi trabalhar morta de cansaço, mas lembrando dos melhores momentos, ele dando pedacinhos de mamão na boca enquanto ela tomava banho, conversando sobre casamento, filhos, trabalho e mil outras coisas. Com certeza ele seria um homem por quem ela se apaixonaria.
De vez em quando ainda pecam.

17 anos

Janeiro. Ano novinho em folha. Noite. Toca o celular. Número desconhecido. Tem que adivinhar quem está falando. Já me esqueceu? – pergunta a voz. Esqueceu? Não reconhece! Se identifica. Agora sim! Tudo bom? Blá, blá, blá... Tinha dado um cartão num encontro rápido no centro da cidade meses atrás.
- Me lembrei de você ontem – diz ele.
O passado volta em segundos. Rocha. Bairro da zona norte. Ali, depois da UERJ, antes do Engenho Novo. Conhece? Ela morou lá. A Sereia. Começa a lembrar daquelas noites, a campainha tocava e ele estava lá, paradinho, bonitinho, cheirosinho.
-Entra logo, vem beber água, vem.
Ganhou ele de herança, gostava de dizer. Piadinha entre amigas. Era um sexo rápido, afobado, uma vez nem tirou o vestido. Não dava pra ter grandes prazeres, só a sensação do pecado, da juventude, da carne tenra e macia. Lembra de Nelson, quando na fala de Mme Clessi, diz que as mulheres só deviam amar os meninos de 17 anos. Ele tem mais de 17, mas isso não tinha a menor importância. Diz que vai ligar de novo segunda ou terça-feira. Será?
O outro foi mais atrevido ou criativo, melhor dizendo. Uma noite, ela chegou cansada e eles estavam todos sentados na entrada do prédio.
– Boa noite.
- Agora vai assistir o Jô – ele disse.
- Pior que não, a televisão está com vida própria, liga quando quer e desliga também.
- Ele fez curso de eletrônica – aponta o amigo.
- Que bom, então pode ir lá tentar consertar qualquer dia – ela inocente.
Os dias e noites passam e aí numa dessas noites de calor intenso, ela desceu um pouco pra tomar a fresca, ver alguém, comprar cigarros, sabe-se lá, e ele passeando com o cachorro da mãe.
– E a televisão? - interessado.
- Continua na mesma. Quando você vai lá dar uma olhada? – ainda inocente.
- Hoje. Vou levar o cachorro em casa e vou lá.
Ela subiu e ficou esperando. Ele chega, de banho tomado, cabelo molhado, e entra tímido na casa.
– A televisão fica lá no quarto.
Por incrível que pareça, ela ainda não tinha entendido. Vira a televisão pra ele olhar e só então olha bem pra ele. A cara dele era de quem nunca tinha feito curso de coisa nenhuma, mas precisava de umas aulas. Só aí ela percebeu que ele queria era entrar ali, naquela casa, naquele quarto, naquele corpo, que era o dela! Que maravilha. Voltou várias vezes.
Quanto à televisão, comprou uma novinha e pagou em cinco vezes sem juros!

Troca de casais

Era sábado. Depois do almoço. O celular tocou.
– Oi, há quanto tempo! Tudo bom? Claro, vamos sim, que horas, onde?
Na hora combinada lá estava ela, saia de couro preta, blusa também preta, sapato alto, não tinha muita certeza de onde iriam. Na verdade ele não disse. Só a convidou para sair, beber alguma coisa, barzinho, ela pensou. Achou estranho, ele era casado, mas nunca se sabe. O papo começou truncado, estranho, tinha duas propostas para fazer: uma decente e outra indecente, palavras dele. Ela quis ouvir a decente primeiro. Sairiam dali, iriam a um motel e resolveriam aquela questão que ele sabia existir, tesão mesmo, vamos falar francamente. A indecente era conhecer um lugar que ele tinha muita curiosidade de ir, mas sua mulher pediria a separação se ele a convidasse. Ela é uma moça conservadora. A esta altura da conversa, quem estava curiosíssima era ela. Que lugar seria esse afinal. Então ele revelou seu desejo. Conhecer um Clube de Swing!
Ela ficou calada uns instantes, surpresa, ele a pegou desprevenida! Era o tipo de lugar que ela não tinha a menor curiosidade de conhecer, mas depois que ele falou que ela seria a única pessoa que entenderia e concordaria em ir, e tudo que ele esperava e tinha curiosidade de ver, ela concordou. Vamos lá, ver com nossos próprios olhos o que acontece num clube desse tipo. Será que vamos trocar? E lá foram eles, morrendo de rir com a própria coragem e ousadia!
Não trocaram, mas se divertiram a valer naquele lugar incrivelmente diferente de tudo que já tinham ido antes!

Viver é muito perigoso - 1991

Nonada. Assim Riobaldo começa a sua narrativa.
Tão bom, tão cômodo, tão gostoso. Tão quente. O colo da mãe. Bobagem. Bom, cômodo, gostoso e quente é se soltar no mundo, sem cobranças, sem provas, sem lenço e sem documento.
Cair no nada, nada procurar, nada temer. Ser solitário, não sozinho, é o caminho da busca da verdade, não a absoluta, mas aquela que é ofertada pelo nada. Para isso é preciso calar e ouvir. Será que é doloroso? Claro que sim. Cair no nada significa assumir a paixão de viver. Transformar o sonho em realidade. Abrir mão da segurança que o rebanho diz que o mundo é. O mundo real. Para ser um solitário é preciso cometer pequenos crimes, perder e antes de tudo passar pela grande perda, o tranco fundador.
No texto Rosa de Paracelso, o discípulo quer saber qual o caminho para a pedra. Paracelso diz: “Não existe caminho para a pedra. O caminho é a pedra”. A pedra do anel do Imperador Amarelo. Ela é cor-do-vento. Ela é linda não? Ela já está perdida há muito, desde sempre. Ela está no nada. Nonada.
O que seria ser artista? Seria falar, não só com palavras tudo que aprendeu no I-mundo. Seria fazer o mundo dançar e dar o toque àqueles que sabem ouvir e ver.
Uma breve história: Era uma vez uma mulher que não sabia ler um livro. Ela tentava de todos os modos, mas logo nas primeiras páginas, o sono vinha chegando e ela desistia. Achava o livro uma chatice e desistia sempre. Assim se passaram diversos anos. Um belo dia estava ouvindo alguém falar. Ele falava e falava. Ela ouvia. De repente: Sertão. “Passarinho que se debruça, o vôo já está pronto”. Chegando em casa, ela abriu o livro, pegou uma pequena chave cor-do-vento e conseguiu, como num passe de mágica, começar a ler finalmente o livro. Travessia.

Um dia na praia

Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2006, quinta-feira. Combinada a praia com as amigas, resolvo ir de táxi, a preguiça é grande. Afinal de contas, ontem foi noite de Loucomotivos no Circo Voador e lá fomos nós, depois do lançamento do livro de histórias das infâncias roubadas. O show é interessante, são tocadas as músicas que todos gostariam de cantar, mas não têm a oportunidade. Falcão tem. E canta todas. Aquelas músicas de churrasco com os amigos, onde lá pelas tantas, todos estão cantando aos gritos! Encontro amigas que não vejo há anos, por diversos motivos. A vida toma rumos, que nem sempre são os desejados. Mas tudo bem. É muito bom reencontrar pessoas de quem se gosta. O papo rola solto, a tentativa de colocar anos de afastamento em dia em alguns minutos é difícil, mas tentamos assim mesmo. E fulana, como está? Casou, separou, teve filhos? Na volta, carona com aquele amigo do amigo francês, lindo, diferente - logo vi que você não era brasileiro!
Mas o assunto era a praia, o táxi. O motorista se oferece, estava no orelhão, tentando falar com a sua querida. No caminho, no engarrafamento na Lagoa, começa a contar o caso de amor com sua querida, é assim que se refere a ela. A conheceu há vinte anos e ficou muito tempo sem ver e eis que a reencontra trabalhando numa loja de roupas infantis. Continua linda, claro que não é mais uma garotinha. Ele precisa comprar um presente para o afilhado. Pergunta se ela não é a esposa do fulano, sim, mas ele faleceu há três anos. E chora pelo falecido. Aquilo o comove. Inventa um presente que não tem na loja e o jeito é encomendar, só pra ter a oportunidade de revê-la. Volta várias vezes, levando chocolates de presente e no dia que chega a encomenda, leva uma caixa de bombons. E some. Fica algum tempo sem aparecer. E quando aparece, ela diz que sentiu sua falta. Nesse momento, o motorista apaixonado faz um certo suspense, e completa, assim na bucha: levei dois meses pra levar ela pra cama!
Me sinto no direito de fazer um comentário, afinal, ele estava se abrindo comigo, contando intimidades, isso tudo num trecho de mais ou menos duzentos metros. Digo que uma mulher que ainda chora o marido morto há três anos, não vai pra cama assim, sem fazer um certo doce. Aí, o carro que já estava morrendo desde a saída, morre de vez e não há nada que faça ele pegar de novo. O próprio motorista, aquele que tem uma querida, pára outro carro e vou embora querendo ficar com aquele homem, com aquele carro enguiçado num engarrafamento na Lagoa, louca pra saber mais da história de amor que esperou vinte anos para se concretizar em algum motel do centro ou subúrbio desta cidade maravilhosa!
O outro motorista dá boas risadas com a história, o assunto muda, falamos de turistas, afinal, têm muitos na cidade ou não? Eu acho que sim, tenho visto muitos, na praia, na Lapa, mas ele afirma que não, esse ano os “gringos” não vieram, só se forem turistas internos. Fico calada então, ele deve saber, e chego ao meu destino, sem saber que o destino de um desses gringos já estava traçado. Morreria minutos depois afogado em Ipanema, numa quinta-feira, véspera de São Sebastião. Uma pena, muito jovem, o irmão estava desesperado, afirmou o vendedor de mate. O helicóptero dá voltas, tenta encontrar o corpo sem vida do jovem que, leio no jornal depois, ia embora para casa hoje. Penso na família dele, como esse irmão vai dar a notícia, que tristeza, meu Deus! Mais tarde ficamos sabendo que o corpo chegou ao Arpoador.

Achados e perdidos

Rio, 20 de janeiro, sexta-feira, feriado de São Sebastião, padroeiro da cidade maravilhosa. Praia novamente! Me dou conta que estou indo à praia todos os dias, encontrando as mesmas amigas, gente muito boa, mulheres da minha idade mais ou menos, coisa rara. Ficamos ali, na sombra das barracas, como uma grande tenda, jogando conversa fora e observando o movimento de vendedores ambulantes, conversando com todos e sabendo dos acontecimentos da praia. Um desses ambulantes é diferente, passa todos os dias com uma caixa de isopor velha, presa com um elástico, colada com fita adesiva e ele anda com um par de óculos escuros, oferecendo a todo mundo com um papo que achou e quer vender. Cada dia é um par diferente, bonito, de marca. A nossa curiosidade é grande, será que ele tem outros óculos dentro da caixa? Na verdade, queremos saber o que ele carrega naquela caixa. Pode ser mais óculos, mas ele diz que achou, ninguém acha tantos óculos assim. Outro dia eu achei um par, mas não era de marca, era aqueles simples, inclusive sentei nele e ficou torto! Mas a nossa curiosidade foi sendo aguçada pelo comportamento do ambulante misterioso. Ele chega perto das pessoas, fala baixinho, oferece com jeito, conta uma historinha, ficamos sabendo de pessoas que já compraram com ele. O rapaz da barraca diz que ele rouba os óculos, mas não queremos saber. Só nos interessa saber o que ele traz na caixa de isopor.
Sexta-feira, lá vem ele...com a caixa de isopor. Quando vai passando perto de nós, não resistimos e chamamos. Chega todo sorrisos! Sem dar tempo pra ele pensar, perguntamos: - O que você traz aí na caixa? Ele calmamente tira o elástico, abre a caixa lentamente, e finalmente acaba o mistério: lá no fundo da caixa, um pé ao lado do outro, um par de sandálias havaianas cor-de-rosa! Eu aplaudi com entusiasmo, ele ficou meio sem graça e depois de fechar a caixa, seguiu seu caminho nas areias de Ipanema em direção ao Arpoador...quem sabe hoje ele vende os óculos?

Caçadora de vento

Minha amiga que resolveu comprar uma bicicleta nova. E deixou a usada comigo. Ela pretende ficar com duas, assim as visitas podem passear com ela. Na verdade, ela quer um namorado para fazer isso. Companhia masculina pelas ciclovias do Rio de Janeiro, que, aliás, continua lindo! Mas enquanto ela não consegue, ando eu, na Hunter dela.
Caçando o vento pela cidade maravilhosa!
Qualquer dia. A praia é um lugar onde se vê de tudo. O trecho onde tenho ido é no posto 8, bem em frente aquele parquinho na areia que virou uma certa moda, desde a criação do Baixo Bebê no Leblon. Há alguns anos, algumas mães jovens, artistas, modernas começaram a levar seus bebês num certo trecho da praia do Leblon todos os dias no mesmo horário. No começo era em frente a um quiosque comum, mas virou um ponto de encontro para todas as mães descoladas e babás de bebês que no futuro seriam descolados também. Se transformou numa marca, tem muitas atividades, sítio na Internet e tudo o mais. Esse tipo de lugar, cercado e com brinquedos, um pequeno parque para crianças de zero a sete anos, se espalhou pela praia e podem ser vistos alguns em toda a orla. Enfim, é em frente a um desses que tenho ido encontrar as amigas. Claro que também tem a barraca do Baiano. Esse também está lá há anos, vendendo bebidas, alugando cadeiras e barracas para os comodistas como eu. Claro que não é só comodismo. Acho que estou na meia idade.

corpo caloso e urubus

Aí ele disse que vai esvaziar a cabeça dela. O corpo caloso (será?) fica no meio do cérebro...
Papo cabeça literalmente! Ela conhece o corpo cavernoso, assim de ouvir falar...
Mas o corpo caloso, hum...
Mas ele é interessantíssimo, sabe falar sério também, ela quase chorou...não faça nada de maldade, eu sumo!
Deve ser a kundaline!A virilha fica tontinha, tontinha...
Quando ele coloca a mão entre as suas pernas, ela de saia, no meio de todos, na mesa do bar em pleno Ipanema, pára o tempo, pára a vida, só aquela mão passando na pele da perna sem pelos, tem importância.
A conversa gira em torno de animais, pássaros, besouros e urubus.
Não se chega a lugar algum.
Se você se apaixonar por mim, vai ser minha mulher – ele disse.

Mas como saber se vou estar apaixonada o suficiente? – ela disse.

Eu vou saber - ele disse.

Aí ela se pergunta? Como se mede uma paixão?

Pela quantidade de tempo que se pensa na pessoa?

Pela vontade de pegar o telefone e ligar toda hora?

Pelo calor no baixo ventre cada vez que pensa no outro?

Tá tudo acesso em mim, tudo plugado, tudo queimando em mim, diz a letra da canção, desde que sim, eu vim morar nos seus olhos...

Será que é isso, morar nos olhos do outro?

Não seria, morar nos meus olhos?

Ih, tá ficando difícil...

Pêlo, pêla, péla, pelada, pelados...ai, ai...

Será que a paixão não é mensurável?

E será que é durável?

Quanto tempo dura uma paixão?

Alguns estudiosos afirmam que dura mais ou menos um ano...

Depois pode ou não virar amor...

E o amor?

Como se mede?

Tá ficando cada vez mais difícil...

Acho melhor parar de querer respostas

e simplesmente deixar...

depois a gente vê no que dá.