segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

17 anos

Janeiro. Ano novinho em folha. Noite. Toca o celular. Número desconhecido. Tem que adivinhar quem está falando. Já me esqueceu? – pergunta a voz. Esqueceu? Não reconhece! Se identifica. Agora sim! Tudo bom? Blá, blá, blá... Tinha dado um cartão num encontro rápido no centro da cidade meses atrás.
- Me lembrei de você ontem – diz ele.
O passado volta em segundos. Rocha. Bairro da zona norte. Ali, depois da UERJ, antes do Engenho Novo. Conhece? Ela morou lá. A Sereia. Começa a lembrar daquelas noites, a campainha tocava e ele estava lá, paradinho, bonitinho, cheirosinho.
-Entra logo, vem beber água, vem.
Ganhou ele de herança, gostava de dizer. Piadinha entre amigas. Era um sexo rápido, afobado, uma vez nem tirou o vestido. Não dava pra ter grandes prazeres, só a sensação do pecado, da juventude, da carne tenra e macia. Lembra de Nelson, quando na fala de Mme Clessi, diz que as mulheres só deviam amar os meninos de 17 anos. Ele tem mais de 17, mas isso não tinha a menor importância. Diz que vai ligar de novo segunda ou terça-feira. Será?
O outro foi mais atrevido ou criativo, melhor dizendo. Uma noite, ela chegou cansada e eles estavam todos sentados na entrada do prédio.
– Boa noite.
- Agora vai assistir o Jô – ele disse.
- Pior que não, a televisão está com vida própria, liga quando quer e desliga também.
- Ele fez curso de eletrônica – aponta o amigo.
- Que bom, então pode ir lá tentar consertar qualquer dia – ela inocente.
Os dias e noites passam e aí numa dessas noites de calor intenso, ela desceu um pouco pra tomar a fresca, ver alguém, comprar cigarros, sabe-se lá, e ele passeando com o cachorro da mãe.
– E a televisão? - interessado.
- Continua na mesma. Quando você vai lá dar uma olhada? – ainda inocente.
- Hoje. Vou levar o cachorro em casa e vou lá.
Ela subiu e ficou esperando. Ele chega, de banho tomado, cabelo molhado, e entra tímido na casa.
– A televisão fica lá no quarto.
Por incrível que pareça, ela ainda não tinha entendido. Vira a televisão pra ele olhar e só então olha bem pra ele. A cara dele era de quem nunca tinha feito curso de coisa nenhuma, mas precisava de umas aulas. Só aí ela percebeu que ele queria era entrar ali, naquela casa, naquele quarto, naquele corpo, que era o dela! Que maravilha. Voltou várias vezes.
Quanto à televisão, comprou uma novinha e pagou em cinco vezes sem juros!

Um comentário:

  1. Adorei não tinha feito curso de coisa nenhuma mas precisava de umas aulas... dá-lhe, Sereia!

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