segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Um dia na praia

Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 2006, quinta-feira. Combinada a praia com as amigas, resolvo ir de táxi, a preguiça é grande. Afinal de contas, ontem foi noite de Loucomotivos no Circo Voador e lá fomos nós, depois do lançamento do livro de histórias das infâncias roubadas. O show é interessante, são tocadas as músicas que todos gostariam de cantar, mas não têm a oportunidade. Falcão tem. E canta todas. Aquelas músicas de churrasco com os amigos, onde lá pelas tantas, todos estão cantando aos gritos! Encontro amigas que não vejo há anos, por diversos motivos. A vida toma rumos, que nem sempre são os desejados. Mas tudo bem. É muito bom reencontrar pessoas de quem se gosta. O papo rola solto, a tentativa de colocar anos de afastamento em dia em alguns minutos é difícil, mas tentamos assim mesmo. E fulana, como está? Casou, separou, teve filhos? Na volta, carona com aquele amigo do amigo francês, lindo, diferente - logo vi que você não era brasileiro!
Mas o assunto era a praia, o táxi. O motorista se oferece, estava no orelhão, tentando falar com a sua querida. No caminho, no engarrafamento na Lagoa, começa a contar o caso de amor com sua querida, é assim que se refere a ela. A conheceu há vinte anos e ficou muito tempo sem ver e eis que a reencontra trabalhando numa loja de roupas infantis. Continua linda, claro que não é mais uma garotinha. Ele precisa comprar um presente para o afilhado. Pergunta se ela não é a esposa do fulano, sim, mas ele faleceu há três anos. E chora pelo falecido. Aquilo o comove. Inventa um presente que não tem na loja e o jeito é encomendar, só pra ter a oportunidade de revê-la. Volta várias vezes, levando chocolates de presente e no dia que chega a encomenda, leva uma caixa de bombons. E some. Fica algum tempo sem aparecer. E quando aparece, ela diz que sentiu sua falta. Nesse momento, o motorista apaixonado faz um certo suspense, e completa, assim na bucha: levei dois meses pra levar ela pra cama!
Me sinto no direito de fazer um comentário, afinal, ele estava se abrindo comigo, contando intimidades, isso tudo num trecho de mais ou menos duzentos metros. Digo que uma mulher que ainda chora o marido morto há três anos, não vai pra cama assim, sem fazer um certo doce. Aí, o carro que já estava morrendo desde a saída, morre de vez e não há nada que faça ele pegar de novo. O próprio motorista, aquele que tem uma querida, pára outro carro e vou embora querendo ficar com aquele homem, com aquele carro enguiçado num engarrafamento na Lagoa, louca pra saber mais da história de amor que esperou vinte anos para se concretizar em algum motel do centro ou subúrbio desta cidade maravilhosa!
O outro motorista dá boas risadas com a história, o assunto muda, falamos de turistas, afinal, têm muitos na cidade ou não? Eu acho que sim, tenho visto muitos, na praia, na Lapa, mas ele afirma que não, esse ano os “gringos” não vieram, só se forem turistas internos. Fico calada então, ele deve saber, e chego ao meu destino, sem saber que o destino de um desses gringos já estava traçado. Morreria minutos depois afogado em Ipanema, numa quinta-feira, véspera de São Sebastião. Uma pena, muito jovem, o irmão estava desesperado, afirmou o vendedor de mate. O helicóptero dá voltas, tenta encontrar o corpo sem vida do jovem que, leio no jornal depois, ia embora para casa hoje. Penso na família dele, como esse irmão vai dar a notícia, que tristeza, meu Deus! Mais tarde ficamos sabendo que o corpo chegou ao Arpoador.

Nenhum comentário:

Postar um comentário