segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Viver é muito perigoso - 1991

Nonada. Assim Riobaldo começa a sua narrativa.
Tão bom, tão cômodo, tão gostoso. Tão quente. O colo da mãe. Bobagem. Bom, cômodo, gostoso e quente é se soltar no mundo, sem cobranças, sem provas, sem lenço e sem documento.
Cair no nada, nada procurar, nada temer. Ser solitário, não sozinho, é o caminho da busca da verdade, não a absoluta, mas aquela que é ofertada pelo nada. Para isso é preciso calar e ouvir. Será que é doloroso? Claro que sim. Cair no nada significa assumir a paixão de viver. Transformar o sonho em realidade. Abrir mão da segurança que o rebanho diz que o mundo é. O mundo real. Para ser um solitário é preciso cometer pequenos crimes, perder e antes de tudo passar pela grande perda, o tranco fundador.
No texto Rosa de Paracelso, o discípulo quer saber qual o caminho para a pedra. Paracelso diz: “Não existe caminho para a pedra. O caminho é a pedra”. A pedra do anel do Imperador Amarelo. Ela é cor-do-vento. Ela é linda não? Ela já está perdida há muito, desde sempre. Ela está no nada. Nonada.
O que seria ser artista? Seria falar, não só com palavras tudo que aprendeu no I-mundo. Seria fazer o mundo dançar e dar o toque àqueles que sabem ouvir e ver.
Uma breve história: Era uma vez uma mulher que não sabia ler um livro. Ela tentava de todos os modos, mas logo nas primeiras páginas, o sono vinha chegando e ela desistia. Achava o livro uma chatice e desistia sempre. Assim se passaram diversos anos. Um belo dia estava ouvindo alguém falar. Ele falava e falava. Ela ouvia. De repente: Sertão. “Passarinho que se debruça, o vôo já está pronto”. Chegando em casa, ela abriu o livro, pegou uma pequena chave cor-do-vento e conseguiu, como num passe de mágica, começar a ler finalmente o livro. Travessia.

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