terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Veludo

Então ela olhou para cima. Os fungos estavam no teto do corredor e ela achou que eram interessantes, mas ameaçadores. Criaturas vivas, de forma arredondada que iam rapidamente se transformando em coisas peludas, azuis, com uma espécie de franja que pendiam em direção ao chão. Ela falou com seu seu pai que estava com medo. Ele calmamente explicou que os fungos estavam se reproduzindo e que haviam se formado por causa da umidade que entrava pelo bocal da lampada. A umidade, o calor e a escuridão favoreceram essa criação. Ela estava ficando apavorada. Mas se encheu de coragem e resolveu que ia retirar todos aqueles bichos peludos do teto de sua casa.
A criança não parava, andava pela casa procurando coisas para mexer e a deixava tonta e mais nervosa ainda. Otavio estava deitado, havia se sentido mal e Layla o convenceu que devia se deitar um pouco, nesse momento era o melhor a fazer. Ele era o novo marido de sua mãe e Layla admirava o trabalho dele como ator. Valeria chegou e se encarregou de distrair a menina, que agora corria em volta da estante de vidro que ameaçava cair e causar um estrago. Valeria saiu com a menina e Layla se acalmou. Resolveu que precisava de uma espátula, dessas que os pedreiros usam, para retirar as criaturas franjadas e estranhas que haviam invadido o teto de sua casa e não paravam de crescer. Subiu para o terraço, onde o fogão à lenha nunca era apagado e começou a procurar nas fendas das paredes, que faziam as vezes de estantes e armários. Era ali que os homens guardavam seus materiais de trabalho. Só encontrava facões e pedaços de madeira. Nada de espátula. Olhou para a rua lá embaixo, o trânsito era alucinante, carros em todas as direções, alguns sendo empurrados por homens fortes e morenos como todos da região. Ela se lembrou do trânsito de Calcutá. Layla estava tão distraída que nem percebeu que Marcio havia chegado. Ele a abraçou e se sentaram no banco, um de frente pro outro, pernas entrelaçadas e começaram a se beijar sem se importar com as pessoas em volta, afinal todos já estavam acostumados com esse amor intenso e abusado deles. Layla falou para descerem, para o quarto, mas então se lembrou do motivo de estar ali. Precisava de um instrumento para retirar as criaturas do teto do corredor.
Manoel apareceu animado e falante, querendo contar uma piada. Mas Layla não estava a fim de escutar piadas. Tinha uma tarefa a fazer e ia. Marcio percebeu que ela estava nervosa e agitada e quis saber o motivo. Riu quando ela contou e disse que ela estava nervosa à toa, aquilo era fácil de resolver e ela então sorriu e pensou em como amava aquele homem. Tinham se conhecido há muito tempo, ele era lindo, com os cabelos compridos até os ombros, olhos castanhos e um sorriso lindo. Se apaixonou por ele assim do nada, à primeira vista, só pelo sorriso aberto, aquela boca de promessa de felicidade. Quando Layla perguntava quando ele se apaixonou por ela e porque, ele sorria e dizia que não sabia responder, não tinha certeza. Tinha a sensação que havia sido na noite em que sairam para beber e ela mostrou a perna pedindo para ele sentir como a pele dela era macia e ele teria dito que parecia um veludo!Então, desde dia não mais se separaram e viviam intensamente esse amor. Ele morava numa colina, numa casinha pequena e rústica, bem humilde, mas isso não tinha a menor importância. Só o que interessava a ela era o seu corpo bem feito, seus ombros largos e suas pernas bem torneadas, com panturrilhas musculosas. Era um homem perfeito e isso bastava. Ela subia a colina feliz, excitada só em pensar o que iam fazer assim que ela entrasse pela porta. Seus beijos eram os melhores, mais doces e quentes que ela já havia experimentado, suas mãos grandes e bem feitas percorriam sua pele com ternura e ela ficava arrepiada e se sentia amada e desejada como todas as mulheres gostariam de se sentir!Marcio era rústico, quase rude, sem estudo, mas era o melhor amante, o mais doce que ela já tivera. Tocava de ouvido como se diz, puro instinto ou intuição.
Desceram juntos então para a casa, para o corredor onde estavam os fungos ameaçadores e Marcio rapidamente se livrou das criaturas com suas ferramentas. Colocou aquelas coisas, como Layla dizia, em sacos pretos de lixo e passou querosene no teto para que não mais se criasse qualquer espécie de fungo ou coisa parecida. Consertou também a abertura do bocal da lâmpada, colocou uma nova no lugar da queimada e desceu da escada, guardando as ferramentas numa caixa. Layla olhava para ele extasiada, aquele homem tão bonito, tão sedutor, capaz de fazer esse trabalho tão facilmente, um trabalho que para ela parecia tão perigoso e difícil!
Layla então o beijou, deram as mãos, e foram olhar a casa. Otavio estava melhor, se sentindo recuperado, a menina dormia, Valeria cochilava na cadeira de balanço perto da janela. Seu pai sorriu para ela e a vida voltou ao normal.

(Um sonho de Leila Oli - dezembro de 2010)

Um comentário:

  1. Ai que maravilha seu espaço Leila! udo muito rico por aqui, gostei vou frequentar!
    beijo da Marisa

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